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“Apanhadora de Sonhos”, de Kim Longinotto

Apanhadora de Sonhos (Dreamcatcher – 2015)

Brenda Myers-Powell sobreviveu a uma infância imersa na
violência, sofreu abuso sexual desde os quatro anos, adentrando, em sua
juventude, no ingrato mundo da prostituição. Ela lutava para manter alguma paz
interior de forma lúdica, conversando com amigos imaginários, seus ídolos na
música: Elvis Presley e Diana Ross, com quem dançava na solidão de seu quarto,
inconscientemente fortalecendo seu espírito. Com quatorze anos, já tinha duas
filhas. Anos depois, ao invés de buscar fama relatando suas experiências, ela
preferiu trabalhar nas sombras, investindo seu tempo na construção da Fundação
Dreamcatcher, visitando os bairros mais pobres e presenteando mulheres tão
sofridas quanto ela, vítimas de todo tipo de agressão física e psicológica, com
a esperança de quem percebe um reflexo diferente no espelho da vida.

A esperança envolta em um sorriso acolhedor, uma alegria que encoraja e afasta
o danoso, porém, nesse caso, compreensível vitimismo. A diretora Kim Longinotto
acompanha essa heroína, que, numa demonstração de tremenda resiliência,
conseguiu manter intacta sua autoestima, sempre cuidando de sua imagem, em suas
visitas regulares a prisões e centros de detenção juvenil. É impossível não se
encantar por ela, pura simpatia e gentileza, provendo estranhas com auxílio
prático, distribuindo camisinhas, além de dedicar também um tempo generoso ao
ato mais precioso: escutar, sem julgamento, sem aquela superioridade típica dos
hipócritas, o clássico tão popular no Brasil: “agora encontrei Jesus e sou
melhor”, nada disso. Sua bondade é genuína, conseguindo, com seu olhar
carinhoso, transformar o local mais opressivo, por alguns minutos, em um espaço
de plena tranquilidade, possibilitando terreno fértil para que os corações mais
sofridos consigam desabafar.

A câmera apenas observa à distância, a diretora não tem interesse em deixar sua
impressão digital em cada cena, equívoco comum em documentários. Sem apelar
para qualquer recurso de estilo que pudesse manipular o registro, evitando o
sensacionalismo até mesmo nos momentos mais impactantes, “Apanhadora de Sonhos”
é um documentário verdadeiramente essencial.

Octavio Caruso

Viva você também este sonho...

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Octavio Caruso

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