Críticas

Crítica de “A Ligação”, de Chung-hyun Lee, na NETFLIX

A Ligação (Kol – 2020)

Conectada a outra mulher por telefone, mas separada dela no tempo, uma serial killer (Jeon Jong-seo) põe em risco o passado e a vida da sua interlocutora (Park Shin-hye) para mudar o próprio destino.

É curioso perceber na reação do público brasileiro ao filme nas redes sociais o fruto do claro processo de emburrecimento das últimas décadas, a necessidade infantilizada de ter tudo explicadinho (vide o tolo modismo das manchetes “explicando o final de…”), reclamações sobre furos narrativos (na realidade, o problema está no receptor que não entendeu ou não prestou atenção) e o batido erro de expectativa (o filme não é exatamente o que eu queria que fosse, logo, não é bom).

O brasileiro “adultescente” egoísta e mimado não entende que cinema não é pensado para a satisfação de seus caprichos, o prazer da arte está em adentrar o universo proposto pelo realizador, usufruindo de suas escolhas, agregando seu próprio estofo cultural.

As reviravoltas nas linhas temporais se tornam sensorialmente eficientes por causa de dois elementos fundamentais, o ritmo frenético imposto desde o início, que torna a experiência gradativamente mais angustiante, e, sem exagero, as atuações espetaculares de Jeon Jong-seo e Park Shin-hye. O conflito entre as duas (inocência e malícia se alternando) é tão hipnótico que jamais questionamos o recurso simplório utilizado para conectar 1999 e 2019, um aparelho telefônico. Outro ponto que precisa ser destacado é a belíssima utilização da computação gráfica nas sequências em que o destino é transformado, elemento que, nas mãos erradas, poderia facilmente quebrar a imersão do espectador.

O longa de estreia do roteirista/diretor sul-coreano Chung-hyun Lee, inspirado livremente no fraco “The Caller” (2011), que, por sua vez, remetia sutilmente ao sul-coreano “Siworae” (2000, refilmado em 2006 como “A Casa do Lago”), é uma engenhosa mistura de sci-fi, thriller e horror, que trabalha o conceito de viagem no tempo de uma forma intensamente criativa, tonalmente sombria, brincando com segurança neste terreno, surpreendendo o público até mesmo nos créditos finais, evidenciando o total domínio do cineasta no seu jogo de manipulação mental.

O toque verdadeiramente brilhante é utilizar o paradoxo temporal como alegoria para contar uma simples e bonita história sobre culpa e ressignificação na relação pós-traumática entre mãe e filha.

Cotação:

Octavio Caruso

Viva você também este sonho...

Recent Posts

PÉROLAS que ACABAM de entrar na AMAZON PRIME

Eu facilitei o seu garimpo cultural, selecionando os melhores filmes dentre aqueles títulos que entraram…

24 horas ago

Dica do DTC – “A Dama Enjaulada”, com OLIVIA DE HAVILLAND

No “Dica do DTC”, a nova seção do “Devo Tudo ao Cinema”, a intenção não…

1 dia ago

“Roberto Carlos em Ritmo de Aventura”, de Roberto Farias

Roberto Carlos em Ritmo de Aventura (1968) O ídolo Roberto Carlos é perseguido por um…

3 dias ago

O último dia de um sebo muito querido…

Neste sábado ensolarado, minha esposa e eu saímos cedo de casa para o usual garimpo…

4 dias ago

ÓTIMOS filmes que ACABAM de entrar na AMAZON PRIME

Eu facilitei o seu garimpo cultural, selecionando os melhores filmes dentre aqueles títulos que entraram…

5 dias ago

“A Volta dos Mortos-Vivos” (1985), de Dan O’Bannon

A Volta dos Mortos-Vivos (The Return of the Living Dead - 1985) Quando dois funcionários…

6 dias ago