Críticas

“Chuva Negra”, de Ridley Scott, na NET NOW

Chuva Negra (Black Rain – 1989)

Os policiais Nick Conklin (Michael Douglas) e Charlie Vincent (Andy Garcia) vão até o Japão levar um criminoso, Sato (Yusaku Matsuda), que prenderam em território americano, mas chegando lá o deixam escapar e, para recapturá-lo, acabam metidos numa confusão com a Yakuza, a máfia japonesa, recebendo apoio do detetive local, Masahiro (Ken Takakura).

A trilha sonora de Hans Zimmer é o complemento perfeito para a atmosfera criada na fotografia de Howard Atherton e Jan de Bont, um conto sobre honra visualmente marcante utilizando as convenções do gênero policial, favorecido pelo carisma do trio Michael Douglas, Andy Garcia e Ken Takakura. E, claro, contar com a participação esporádica de Kate Capshaw no auge da beleza também ajuda bastante.

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Nick é ousado, afoito e já se envolveu em situações ilícitas no seu trabalho, apesar de se mostrar perturbado por ter se permitido corromper, ele mantém a pose, psicologicamente sentindo a necessidade de se provar valoroso a todo momento (a simbologia mais clara é a sequência inicial em que ele disputa um pega de motocicletas), fragilidade que o inimigo capta e utiliza contra ele de forma brutal, agregando ainda mais culpa em sua pesada consciência.

O leitmotiv da trama, o elemento que eleva a qualidade da obra dentre suas similares do mesmo período, não se trata de uma anabolizada caçada por vingança, o roteiro de Craig Bolotin e Warren Lewis enxerga a ação como uma jornada interna de ressignificação de conduta do protagonista, uma batalha para restaurar a honra ferida, refletindo o macrocosmo cultural exposto no título (a chuva ácida representando a aceitação forçada de valores estrangeiros pelo povo japonês), infelizmente pouco compreendido à época.

Nick foi levado pelo sistema a cometer atos contrários à sua índole, ele aprende com Masahiro a importância fundamental da honra, gatilho de humilhação que desperta nele a essência adormecida de sua função na sociedade. A leveza jovial de Charlie (Andy Garcia, num toque de gênio, propôs a inclusão da divertida cena no karaokê, que não existia no roteiro, adicionando mais camadas de necessária humanização nos personagens) também serviu como aprendizado, ainda que percebido posteriormente, já que o jovem não fazia esforço algum para ser notado, ele não precisava se autoafirmar.

O cenário sombrio, sujo, espécie de pesadelo neo-noir, é a representação alegórica deste conflito intensamente humano. “Chuva Negra” é usualmente tido como um passo em falso do diretor Ridley Scott, mas se mostrou forte em revisão para este texto.

Octavio Caruso

Viva você também este sonho...

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